sexta-feira, 11 de abril de 2014

A Popozuda Polêmica


A Popozuda Polêmica


"Pode suceder sentirmos a morte de nossos inimigos, mesmo passado grande número de anos, quase tanto como a dos nossos amigos – é quando vemos que nos fazem falta para serem testemunhas dos nossos brilhantes sucessos. "
Dores do mundo- A. Schopenhauer

Recentemente, uma simples prova de filosofia causou um estardalhaço na internet. Porque descobriram a causa metafísica da não-existência dos grammys da Katy Perry? Encontram a ontologia do play-back da Britney? Descobriram que sua voz é mera contingência, enquanto que tudo deriva de um CD? Formularam, finalmente, uma concepção hegeliana da estética da Lorde? Não.
Tudo que aconteceu, foi simplesmente que o professor cometeu o inominável crime de chamar Valesca Popozuda de “grande pensadora contemporânea.”; minha primeira reação como estudante de filosofia — da Universidade Federal do Ceará, beijinho no ombro. — foi dizer, pare! Até quando você vai chegar e mudar minha vida.
Chamar Valesca Popozuda de grande pensadora contemporânea foi, ao meu ver, um grande absurdo vindo de um professor de filosofia, porque a pretensão de Valesca nunca foi construir um sistema filosófico, mas fazer arte  — se ela conseguiu fazer arte ou não, ai é outra questão (na minha opinião, funk é sim tanto uma forma de arte, como também uma forma de cultura). Portanto, não cabia a ela ser chamada de tal e a afirmação mais me pareceu um deboche recalcado do professor.
Mas esse nem de longe foi o principal problema; o que realmente me chocou — tá, nem tanto; minha esperança na humanidade está perdida desde que criaram a Restart, digo, bomba atômica.  — foi o teor das criticas contra as palavras do professor; não havia praticamente nenhuma discussão sobre se aquilo era filosoficamente plausível, mas a questão colocada foi justamente se Valesca, como uma cantora de funk, poderia ser considerada uma pensadora.
A frase “se fosse uma frase de uma musica de Elis Regina, Caetano Veloso, ninguém estaria falando nada” fora repetida uma gama de vezes suficientes para me fazer perceber que, eles têm razão! E a questão é o real problema não mais do que é dito, mas de quem diz. A questão é que tal repercussão só se deu, porque o gênero citado na prova é som de preto, de favelado, que quando toca, ninguém fica parado; e não pela veracidade do valor filosófico da questão.
Eis então que, adivinhem só, músicas com refrões como “A porra da buceta é minha”, promovem sim, tanto uma questão de discussão filosófica sobre a mudança da moral contemporânea e a libertação da mulher do sistema opressor falocêntrico que a coloca como razão do mal, culpada até de ser a vitima de um estupro, por causa da voluptuosidade de sua vestimenta. E tal valor para a discussão filosófica e das ciências sociais é extremamente similar a da música “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque. No fim, acaba apenas sendo demandas diferentes, para épocas diferentes e classes sociais distintas.
Claro, ainda há a velha questão sobre como uma música com tema sexual explícito possa ser tida como música boa. O estranho, é que essas mesmas pessoas são aquelas que dançam ao som de My Humps, do Black Eyed Pies, que a bem dizer, trata do mesmo tema do funk ostentação: sexo e o poder do dinheiro.
É estranho pensar que a música pop não costuma ser alvo de criticas tão pesadas quanto o funk, apesar de tratar, e as vezes com termos similares, dos mesmos temas. É mais comum ver Rihana ser criticada por seus cortes de cabelo — e, por favor, não os imite — do que por construir diversas músicas com apologia às drogas e ao sexo. Portanto, porque o funk é tão visado afinal?
E eu costumo dizer, que o funk é visado, é considerado como música inferior por ter sido emergido das classes menos abastadas. Veja o exemplo do que era o samba no inicio do século XX, tomado como e espiem só as semelhanças: “condutor para a devassidão”, “música de preto” e o mais clássico “isso não é música, é barulho”; tudo isso porque a música consumida pelas classes abastadas era a clássica, graças as influencias européias que o Brasil consumia tão largamente na época.
O samba chegou inclusive a ser proibido. Artistas eram presos simplesmente por portarem batuques e pandeiros, somente quando os deputados e diversos representantes da elite brasileira passaram a promover rodas de samba em seus palacetes é que tal foi considerado cultura e hoje é um dos símbolos da brasilidade.
E antes que você questione a inteligência racional da figura de Valesca, percebam as respostas contundentes que ela deu a revista época nessa entrevista:  http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/04/bvalesca-popozudab-ser-vadia-e-ser-livre.html; e pesquisem sobre seu envolvimento com a campanha de Eu Não Mereço Ser Estuprada e seus outros posicionamentos acerca de outras questões político-culturais.
Suas palavras são mais libertarias, mais pautadas numa sociedade livre e igualitária, do que a de muita gente que se porta como o rei do camarote por possuir um curso superior. (e a grande maioria de pessoas que possuem curso superior vão trabalhar em empresas que são comandadas por empresários que muitas vezes sequer terminaram o nível médio; sinto muito, mas curso superior não é garantia de riqueza.)
Portanto, sugiro que muitos de nós paremos de se colocar como portadores de uma cultura superior, gritando em línguas estrangeiras “late mais alto que daqui eu não te escuto”, porque existem mais nuances na arte, do que supõe sua audácia intelectual.
E aqui, para aqueles que costumam continuar o discurso de que cantar uma música de funk é algo que qualquer um faz, e não possui mérito algum; jamais poderá ser considerada arte. Deixo aqui a critica de Monteiro Lobato à Anitta Malfatti no inicio do século passado:
A outra espécie[de artistas]  é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro.”


Seu conservadorismo bate na minha sociologia e volta.

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