A Popozuda Polêmica
"Pode suceder sentirmos a morte
de nossos inimigos, mesmo passado grande número de anos, quase tanto como a dos
nossos amigos – é quando vemos que nos fazem falta para serem testemunhas dos
nossos brilhantes sucessos. "
Dores do mundo- A. Schopenhauer
Dores do mundo- A. Schopenhauer
Recentemente, uma simples prova
de filosofia causou um estardalhaço na internet. Porque descobriram a causa
metafísica da não-existência dos grammys da Katy Perry? Encontram a ontologia
do play-back da Britney? Descobriram que sua voz é mera contingência, enquanto
que tudo deriva de um CD? Formularam, finalmente, uma concepção hegeliana da
estética da Lorde? Não.
Tudo que aconteceu, foi
simplesmente que o professor cometeu o inominável crime de chamar Valesca
Popozuda de “grande pensadora contemporânea.”; minha primeira reação como
estudante de filosofia — da Universidade Federal do Ceará, beijinho no ombro. —
foi dizer, pare! Até quando você vai chegar e mudar minha vida.
Chamar Valesca Popozuda de grande
pensadora contemporânea foi, ao meu ver, um grande absurdo vindo de um
professor de filosofia, porque a pretensão de Valesca nunca foi construir um
sistema filosófico, mas fazer arte — se
ela conseguiu fazer arte ou não, ai é outra questão (na minha opinião, funk é
sim tanto uma forma de arte, como também uma forma de cultura). Portanto, não
cabia a ela ser chamada de tal e a afirmação mais me pareceu um deboche
recalcado do professor.
Mas esse nem de longe foi o
principal problema; o que realmente me chocou — tá, nem tanto; minha esperança
na humanidade está perdida desde que criaram a Restart, digo, bomba
atômica. — foi o teor das criticas
contra as palavras do professor; não havia praticamente nenhuma discussão sobre
se aquilo era filosoficamente plausível, mas a questão colocada foi justamente
se Valesca, como uma cantora de funk, poderia ser considerada uma pensadora.
A frase “se fosse uma frase de
uma musica de Elis Regina, Caetano Veloso, ninguém estaria falando nada” fora
repetida uma gama de vezes suficientes para me fazer perceber que, eles têm
razão! E a questão é o real problema não mais do que é dito, mas de quem diz. A
questão é que tal repercussão só se deu, porque o gênero citado na prova é som de preto, de favelado, que quando toca,
ninguém fica parado; e não pela veracidade do valor filosófico da questão.
Eis então que, adivinhem só,
músicas com refrões como “A porra da buceta é minha”, promovem sim, tanto uma
questão de discussão filosófica sobre a mudança da moral contemporânea e a
libertação da mulher do sistema opressor falocêntrico que a coloca como razão
do mal, culpada até de ser a vitima de um estupro, por causa da voluptuosidade
de sua vestimenta. E tal valor para a discussão filosófica e das ciências
sociais é extremamente similar a da música “Mulheres de Atenas”, de Chico
Buarque. No fim, acaba apenas sendo demandas diferentes, para épocas diferentes
e classes sociais distintas.
Claro, ainda há a velha questão
sobre como uma música com tema sexual explícito possa ser tida como música boa.
O estranho, é que essas mesmas pessoas são aquelas que dançam ao som de My
Humps, do Black Eyed Pies, que a bem dizer, trata do mesmo tema do funk
ostentação: sexo e o poder do dinheiro.
É estranho pensar que a música
pop não costuma ser alvo de criticas tão pesadas quanto o funk, apesar de
tratar, e as vezes com termos similares, dos mesmos temas. É mais comum ver
Rihana ser criticada por seus cortes de cabelo — e, por favor, não os imite —
do que por construir diversas músicas com apologia às drogas e ao sexo.
Portanto, porque o funk é tão visado afinal?
E eu costumo dizer, que o funk é
visado, é considerado como música inferior por ter sido emergido das classes
menos abastadas. Veja o exemplo do que era o samba no inicio do século XX,
tomado como e espiem só as semelhanças: “condutor para a devassidão”, “música
de preto” e o mais clássico “isso não é música, é barulho”; tudo isso porque a
música consumida pelas classes abastadas era a clássica, graças as influencias
européias que o Brasil consumia tão largamente na época.
O samba chegou inclusive a ser
proibido. Artistas eram presos simplesmente por portarem batuques e pandeiros,
somente quando os deputados e diversos representantes da elite brasileira
passaram a promover rodas de samba em seus palacetes é que tal foi considerado
cultura e hoje é um dos símbolos da brasilidade.
E antes que você questione a
inteligência racional da figura de Valesca, percebam as respostas contundentes
que ela deu a revista época nessa entrevista:
http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/04/bvalesca-popozudab-ser-vadia-e-ser-livre.html;
e pesquisem sobre seu envolvimento com a campanha de Eu Não Mereço Ser
Estuprada e seus outros posicionamentos acerca de outras questões
político-culturais.
Suas palavras são mais
libertarias, mais pautadas numa sociedade livre e igualitária, do que a de
muita gente que se porta como o rei do camarote por possuir um curso superior.
(e a grande maioria de pessoas que possuem curso superior vão trabalhar em
empresas que são comandadas por empresários que muitas vezes sequer terminaram
o nível médio; sinto muito, mas curso superior não é garantia de riqueza.)
Portanto, sugiro que muitos de
nós paremos de se colocar como portadores de uma cultura superior, gritando em
línguas estrangeiras “late mais alto que daqui eu não te escuto”, porque
existem mais nuances na arte, do que supõe sua audácia intelectual.
E aqui, para aqueles que costumam
continuar o discurso de que cantar uma música de funk é algo que qualquer um
faz, e não possui mérito algum; jamais poderá ser considerada arte. Deixo aqui
a critica de Monteiro Lobato à Anitta Malfatti no inicio do século passado:
“A outra espécie[de artistas] é formada pelos que vêem anormalmente a
natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica
de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São
produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos
de fins de estação, bichados ao nascedouro.”
Seu conservadorismo bate na minha
sociologia e volta.

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