quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ser gay é uma religião




Ser gay é uma religião
Uma reflexão sobre a vivencia da sexualidade

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim.  Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas [os mitos] nos ajudam a procurar dentro de nós mesmos”.

CAMPBELL, Joseph.

A partir do presente momento até a última linha deste texto, cada uma de minhas palavras deve ser desconsiderada como uma tentativa séria de deidificação de quaisquer tipos; não pretendo fazer deste texto uma promoção de uma prática, de fato, religiosa, nem mesmo a pretensão da criação de uma nova religião pautada nas praticas da homossexualidade. Aqui deixo apenas uma reflexão da minha vivência da minha própria sexualidade.
Há muito se discorre sobre a existência de uma cultura gay; uma busca de definição do que é apenas estereotipo externo e do que é pratica de comum acordo dentro da homossexualidade. E sim, há certos parâmetros curriculares que devem ser atingidos se você pretende ser aceito na comunidade gay. E é através disso que percebo uma religião gay neste circulo cultural.
Antes de tudo, é preciso fazer uma diferenciação do praticante do homossexualismo; do homossexual e do gay, por serem entendidas como coisas distintas. Homossexualismo é uma prática de livre e espontânea opção, dada num momento pontual; um hétero pode sim praticar o homossexualismo e não ser propriamente homossexual; tudo vai depender da forma como ele se vê, da forma como ele vê o parceiro e da frequência que isso acontece (praticar uma vez o homossexualismo, não te torna homossexual; praticar isso várias vezes numa semana, é outra história); o homossexual em si é caracterizado por alguém (e aqui já não é mais tido como opcional) que sente atração por alguém do mesmo sexo de forma amorosa ou sexual; é alguém que não só pratica, mas sente desejo constante de praticar; no entanto, o homossexual não está ligado necessariamente à cultura gay.
Gay é o homossexual iniciado na religião; e o que é estar iniciado na religião? Antes de tudo, todo gay(mas não todo homossexual) tem culto a uma deidade, a uma divindade a qual ele chama diva. Diva é uma cantora de sucesso (ou não) que é adorada, idolatrada por fãs, que se unem em grupos nomeados; gostar de uma cantora, não é a torna sua diva; ela é a sua diva, a partir do momento que você se identifica como o modo de culto a aquela cantora, dada pelos demais membros do seu clã.
Isso parece algo trivial, mas não é; o gay é o equivalente na homossexualidade à figura do macho na heterossexualidade; um macho se diferencia de outros machos através do time que ele torce (sim, há heterossexuais que não tem time, isso não é uma afronta a sua masculinidade, ou a sua heterossexualidade; assim como não ter uma diva, não é uma afronta a sua homossexualidade); assim o gay diferencia-se em suas práticas culturais de outros gays através de sua diva e a defende de modo religioso. Gays de divindades consideradas opostas, como Madona e Lady Gaga, constantemente se digladiam nas redes sociais e em fóruns de discussão, verdadeiros templos voltados a promulgação dessas práticas.
Daí tem a discussão do estereotipo; todo gay usa gola V? Não; assim como nem toda mulher evangélica usa saia longa, determinados eixos ditam que é aconselhado o uso de tal vestimenta, do mesmo jeito, que certos círculos de pratica da religião gay salientam que é aconselhado (não obrigatório) o uso de certos tipos de vestimenta, a absorção cultural de certas práticas.
E de fato, em certos eixos de círculos culturais gays, se vestir de maneira inadequada, com cores não combinantes, ou usar gola pólo com short jeans é quase considerado um pecado; é quase, na palavra de certos puristas “vestir-se como hetero”; neste ponto, vemos a defensoria de um estilo de vida gay, um estilo que tem diferenciações com base nos eixos culturais a que você se une. Um estilo que faz com que você seja rechaçado caso você não o siga; um estilo que é defendido religiosamente, como se houvesse uma verdade ontológica vinda dessas divindades do que é, e do que não é.
Há, é claro, os círculos heréticos, os que observam, conhecem a cultura, mas não participam ativamente dela; algumas vezes chamados de narnianos, pessoas que, como na história de Lewis, entram e saem do armário, em outras palavras, pessoas que estão na linha tênue entre o considerado sagrado e o profano; que conhecem as práticas culturais, mas não as praticam.
Há nichos desse segmento religioso que promove a chamada hierarquização da sexualidade homoafetiva, de forma a estabelecer o critério de auto-aceitação como forma de alcançar o paraíso purpurinado das grandes deusas divas; em contrapartida, há ainda aqueles que preferem optar por um culto mais livre, um culto mais aberto, em que não uma diva é escolhida para ser a líder do panteão, mas mais de uma. Nuance que muito acontece com aqueles que não cultuam as divas do mundo pop; mas as ctónicas deusas do rock, do gótico, do metal e suas inúmeras variantes.
Portanto, ser gay é uma religião de diversas práticas; é acima disso, um eixo religioso politeísta; com diversas sub-religiões e é importante lembrar que estar ou não inserido nessa ou em outra cultura não lhe torna menos importante para o viver a experiência homossexual; a não ser, é claro, que você seja de um culto fanático que acha todas as outras praticas erradas em comparação com a sua.
O importante é, acima de tudo, respeitar a religião do outro, o modo do outro; e perceber, que até mesmo aqueles não-iniciados na religião, possuem, talvez, sua própria cultura, sua própria religião e também aceita-las como formas diferentes da sua. É respeitar o estilo de vida alheio; os deuses alheios, as divas alheias; e ver, que cada um escolhe o modo de se relacionar com aquilo que já nasce sendo.
Ser homossexual não é uma questão de escolha; fazer parte de cultura, o é.


E para você que ainda promove estereotipo; ou acredita que sua forma de vivenciar a gayzitude é a certa; ou que certos padrões são imprescindíveis, aqui vai um vídeo muito interessante(e sério!) sobre o tema.


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