Ser gay é
uma religião
Uma reflexão sobre a vivencia da
sexualidade
“Dizem que o que todos
procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma
experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico,
tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos,
de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata,
afinal, e é o que essas pistas [os mitos] nos ajudam a procurar dentro de nós mesmos”.
CAMPBELL, Joseph.
A partir do presente momento até
a última linha deste texto, cada uma de minhas palavras deve ser desconsiderada
como uma tentativa séria de deidificação de quaisquer tipos; não pretendo fazer
deste texto uma promoção de uma prática, de fato, religiosa, nem mesmo a
pretensão da criação de uma nova religião pautada nas praticas da
homossexualidade. Aqui deixo apenas uma reflexão da minha vivência da minha
própria sexualidade.
Há muito se discorre sobre a
existência de uma cultura gay; uma busca de definição do que é apenas
estereotipo externo e do que é pratica de comum acordo dentro da
homossexualidade. E sim, há certos parâmetros curriculares que devem ser
atingidos se você pretende ser aceito na comunidade gay. E é através disso que
percebo uma religião gay neste circulo cultural.
Antes de tudo, é preciso fazer
uma diferenciação do praticante do homossexualismo; do homossexual e do gay,
por serem entendidas como coisas distintas. Homossexualismo é uma prática de
livre e espontânea opção, dada num momento pontual; um hétero pode sim praticar
o homossexualismo e não ser propriamente homossexual; tudo vai depender da
forma como ele se vê, da forma como ele vê o parceiro e da frequência que isso
acontece (praticar uma vez o homossexualismo, não te torna homossexual;
praticar isso várias vezes numa semana, é outra história); o homossexual em si
é caracterizado por alguém (e aqui já não é mais tido como opcional) que sente
atração por alguém do mesmo sexo de forma amorosa ou sexual; é alguém que não
só pratica, mas sente desejo constante de praticar; no entanto, o homossexual
não está ligado necessariamente à cultura gay.
Gay é o homossexual iniciado na
religião; e o que é estar iniciado na religião? Antes de tudo, todo gay(mas não
todo homossexual) tem culto a uma deidade, a uma divindade a qual ele chama
diva. Diva é uma cantora de sucesso (ou não) que é adorada, idolatrada por fãs,
que se unem em grupos nomeados; gostar de uma cantora, não é a torna sua diva;
ela é a sua diva, a partir do momento que você se identifica como o modo de
culto a aquela cantora, dada pelos demais membros do seu clã.
Isso parece algo trivial, mas não
é; o gay é o equivalente na homossexualidade à figura do macho na heterossexualidade;
um macho se diferencia de outros machos através do time que ele torce (sim, há
heterossexuais que não tem time, isso não é uma afronta a sua masculinidade, ou
a sua heterossexualidade; assim como não ter uma diva, não é uma afronta a sua
homossexualidade); assim o gay diferencia-se em suas práticas culturais de
outros gays através de sua diva e a defende de modo religioso. Gays de
divindades consideradas opostas, como Madona e Lady Gaga, constantemente se
digladiam nas redes sociais e em fóruns de discussão, verdadeiros templos
voltados a promulgação dessas práticas.
Daí tem a discussão do
estereotipo; todo gay usa gola V? Não; assim como nem toda mulher evangélica
usa saia longa, determinados eixos ditam que é aconselhado o uso de tal vestimenta,
do mesmo jeito, que certos círculos de pratica da religião gay salientam que é
aconselhado (não obrigatório) o uso de certos tipos de vestimenta, a absorção
cultural de certas práticas.
E de fato, em certos eixos de
círculos culturais gays, se vestir de maneira inadequada, com cores não
combinantes, ou usar gola pólo com short jeans é quase considerado um pecado; é
quase, na palavra de certos puristas “vestir-se como hetero”; neste ponto,
vemos a defensoria de um estilo de vida gay, um estilo que tem diferenciações
com base nos eixos culturais a que você se une. Um estilo que faz com que você
seja rechaçado caso você não o siga; um estilo que é defendido religiosamente,
como se houvesse uma verdade ontológica vinda dessas divindades do que é, e do
que não é.
Há, é claro, os círculos
heréticos, os que observam, conhecem a cultura, mas não participam ativamente
dela; algumas vezes chamados de narnianos, pessoas que, como na história de
Lewis, entram e saem do armário, em outras palavras, pessoas que estão na linha
tênue entre o considerado sagrado e o profano; que conhecem as práticas
culturais, mas não as praticam.
Há nichos desse segmento
religioso que promove a chamada hierarquização da sexualidade homoafetiva, de
forma a estabelecer o critério de auto-aceitação como forma de alcançar o
paraíso purpurinado das grandes deusas divas; em contrapartida, há ainda
aqueles que preferem optar por um culto mais livre, um culto mais aberto, em
que não uma diva é escolhida para ser a líder do panteão, mas mais de uma.
Nuance que muito acontece com aqueles que não cultuam as divas do mundo pop;
mas as ctónicas deusas do rock, do gótico, do metal e suas inúmeras variantes.
Portanto, ser gay é uma religião
de diversas práticas; é acima disso, um eixo religioso politeísta; com diversas
sub-religiões e é importante lembrar que estar ou não inserido nessa ou em
outra cultura não lhe torna menos importante para o viver a experiência
homossexual; a não ser, é claro, que você seja de um culto fanático que acha
todas as outras praticas erradas em comparação com a sua.
O importante é, acima de tudo,
respeitar a religião do outro, o modo do outro; e perceber, que até mesmo
aqueles não-iniciados na religião, possuem, talvez, sua própria cultura, sua
própria religião e também aceita-las como formas diferentes da sua. É respeitar
o estilo de vida alheio; os deuses alheios, as divas alheias; e ver, que cada
um escolhe o modo de se relacionar com aquilo que já nasce sendo.
Ser homossexual não é uma questão
de escolha; fazer parte de cultura, o é.
E para você que ainda promove estereotipo; ou acredita que
sua forma de vivenciar a gayzitude é a certa; ou que certos padrões são imprescindíveis,
aqui vai um vídeo muito interessante(e sério!) sobre o tema.
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