terça-feira, 29 de abril de 2014

Todos fomos, de fato, macacos.






Todos fomos, de fato, macacos

“As ideias muito possuídas não são mais
ideias, eu nada penso quando as falo.”

(Maurice Merleau-Ponty, O Visível e o Invisível )

A arte da mimesis, ou seja, o dom para a imitação, que todos consequentemente adquirimos de forma a conseguir conviver em sociedade, torna-se mais dinâmica e rápida com o advento da internet, fazendo com que as ações que outrora repetimos por conta da tradição ( e por isso, interpretado e repensado por gerações), passassem a agora, serem repetidas por simples impulso, num tipo de repetição com base na repercussão de uma atitude que aqui chamo de viral. O mal da rápida repercussão de certas praticas, recai no antigo mal de tudo aquilo que é imediato: muitas vezes, é impensado profundamente. Não creio, pessoalmente, que a atitude de jogar bananas em Daniel Alves tenha sido levada pelo racismo, ou pelo fato de ele ser negro, mas pelo fato de ser brasileiro, num outro tipo de preconceito tão grave quanto, chamado de xenofobia. - no entanto, não é essa a questão; como a ação foi repercutiu como sendo racismo, tratarei como se fosse.
Qual é o sentido de se lutar contra o racismo apropriando-se de um xingamento racista? Para inicio de conversa, não somos biologicamente, de forma alguma, macacos, segundo a teoria da evolução, se tivéssemos evoluído do macaco, não haveriam mais macacos; somos frutos de um ancestral em comum, e mais ainda, mesmo vindo deste ancestral comum, macacos e humanos são espécies diferentes de primatas.
Então, entra a aqui a questão principal; não há respeito algum de se salientar que somos todos macacos; o que há, é, no máximo, uma banalização(para não se dizer) bananalização de algo que acarreta na morte de dezenas de pessoas todos os anos.
Estar "todos juntos" com hashtags apoiando um movimento que, por si só, já é uma reafirmação do discurso racista, o banalizando; é, também, uma banalização do movimento contra o racismo; não serve de nada escrever #somostodosmacacos e ir para o outro lado quando um negro cruza a rua, ou citar por ai com seus amigos "você está cheirando a nego"; em outras palavras, não adianta de nada, impregnar o instagran de fotos lindas de como você é ativista em prol das causas sociais, enquanto você estiver sentado no conforto de sua casa, continuando no seu dia a dia, a repetir o discurso ideológico racista, muitas vezes sem nem perceber. –– porque quando você o faz percebendo, a questão é ainda mais grave.
A atitude de Daniel Alves confere um discurso óbvio: “foda-se, eu sou rico, bem sucedido e ótimo no que faço; quem é você para me chamar de qualquer coisa?” atirar bananas em Daniel é uma atitude infantil de pessoas imbuídas de um sentimento não só de inveja, mas de Europeus percebendo um brasileiro negro ser muitíssimo mais bem sucedidos que eles; é algo que fere ideologicamente, é algo que magoa, claro; a agressão verbal ou ideológica deve sim ser combatida; nesse sentido, o jogador fez o certo ao mostrar que quem é o real macaco são os torcedores, ao jogar bananas ao estádio, como fazem os símios com suas fezes.
No entanto, nas favelas do Rio, não são bananas que são atiradas aos negros, são balas, e balas que não são as mesmas atiradas nos manifestantes de ocasião, aqueles mesmo que ano passado estavam nas ruas e hoje nada fazem mais do que postar hashtags de #nãovaitercopa; um outro exemplo de como a internet provoca uma ampla mimese, uma ampla imitação imediata (nenhuma critica a essas manifestações, que foram, alias, muitíssimo validas, mas que seriam ainda mais, se toda aquela massa ferrenha não tivesse aferrecido seu fervor em menos de um ano); as balas que são lançadas aos negros da favela, são de verdade, matam, e produzem corpos que jamais serão encontrados. Todos os dias, o racismo produz mortos, filhos órfãos, mães desesperadas que jamais verão seus filhos novamente, e que muitas vezes, não possuem nem mesmo um corpo a velar.
Achar que um simples # vai mudar toda uma ideologia é como reproduzir a visão inocente de que uma curtida vai tirar os mendigos da rua, ou vai fazer os milhares que passam fome ter um prato de comida em suas mesas; é necessária toda uma mudança ideológica, toda uma reforma política e social. Toda uma reforma política e social que deve começar dos indivíduos.
Enquanto houver pessoas que tem medo de negros por sua cor; ou pessoas duvidando da capacidade deles, por causa de um pouco mais de melanina em suas peles; enquanto houver a continua associação da cor da pele com a marginalidade; bananas serão a menor das preocupações. O mundo continuará a ser injusto.
O que significa então, postar fotos no instagran comendo bananas? Lutar contra o racismo? Ou simplesmente aderir a repetição de um modismo cujo teor filosófico não se foi pensado? Porque pensar cansa, pensar dói; repetir é muito mais simples, é muito mais fácil. É o que fazem os macacos; e no fundo, estamos sendo, de fato, todos macacos.
Lutar contra o racismo comendo bananas é o mesmo que lutar contra a agressão a mulher batendo nelas e rindo, divertindo-se com a banalização do ato; é lutar contra a homofobia chamando os gays de viado, como se isso não fosse, de fato, uma ofensa. Não é resignificar um termo para que ele seja menos ofensivo; é banalizá-lo, de forma que seu real caráter não seja de fato percebido, é mascarar a raiz do problema. Lutar contra o racismo comendo bananas em fotos nas redes sociais, é esquecer que o assunto é sério e que há pessoas em plena era contemporânea que ainda morrem por isso, resvalados a favela do esquecimento.
Me poupem de suas bananas; todos queremos respeito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário