Todos fomos,
de fato, macacos
“As ideias muito possuídas não são mais
ideias, eu nada penso quando as falo.”
(Maurice Merleau-Ponty, O Visível e o Invisível )
ideias, eu nada penso quando as falo.”
(Maurice Merleau-Ponty, O Visível e o Invisível )
A arte da mimesis, ou seja, o dom
para a imitação, que todos consequentemente adquirimos de forma a conseguir
conviver em sociedade, torna-se mais dinâmica e rápida com o advento da
internet, fazendo com que as ações que outrora repetimos por conta da tradição
( e por isso, interpretado e repensado por gerações), passassem a agora, serem
repetidas por simples impulso, num tipo de repetição com base na repercussão de
uma atitude que aqui chamo de viral. O mal da rápida repercussão de certas
praticas, recai no antigo mal de tudo aquilo que é imediato: muitas vezes, é
impensado profundamente. Não creio, pessoalmente, que a atitude de jogar
bananas em Daniel Alves tenha sido levada pelo racismo, ou pelo fato de ele ser
negro, mas pelo fato de ser brasileiro, num outro tipo de preconceito tão grave
quanto, chamado de xenofobia. - no entanto, não é essa a questão; como a ação
foi repercutiu como sendo racismo, tratarei como se fosse.
Qual é o sentido de se lutar
contra o racismo apropriando-se de um xingamento racista? Para inicio de
conversa, não somos biologicamente, de forma alguma, macacos, segundo a teoria
da evolução, se tivéssemos evoluído do macaco, não haveriam mais macacos; somos
frutos de um ancestral em comum, e mais ainda, mesmo vindo deste ancestral comum,
macacos e humanos são espécies diferentes de primatas.
Então, entra a aqui a questão principal; não há respeito
algum de se salientar que somos todos macacos; o que há, é, no máximo, uma
banalização(para não se dizer) bananalização de algo que acarreta na morte de
dezenas de pessoas todos os anos.
Estar "todos juntos"
com hashtags apoiando um movimento que, por si só, já é uma reafirmação do
discurso racista, o banalizando; é, também, uma banalização do movimento contra
o racismo; não serve de nada escrever #somostodosmacacos e ir para o outro lado
quando um negro cruza a rua, ou citar por ai com seus amigos "você está
cheirando a nego"; em outras palavras, não adianta de nada, impregnar o
instagran de fotos lindas de como você é ativista em prol das causas sociais,
enquanto você estiver sentado no conforto de sua casa, continuando no seu dia a
dia, a repetir o discurso ideológico racista, muitas vezes sem nem perceber. ––
porque quando você o faz percebendo, a questão é ainda mais grave.
A atitude de Daniel Alves confere
um discurso óbvio: “foda-se, eu sou rico, bem sucedido e ótimo no que faço;
quem é você para me chamar de qualquer coisa?” atirar bananas em Daniel é uma
atitude infantil de pessoas imbuídas de um sentimento não só de inveja, mas de
Europeus percebendo um brasileiro negro ser muitíssimo mais bem sucedidos que
eles; é algo que fere ideologicamente, é algo que magoa, claro; a agressão
verbal ou ideológica deve sim ser combatida; nesse sentido, o jogador fez o
certo ao mostrar que quem é o real macaco são os torcedores, ao jogar bananas
ao estádio, como fazem os símios com suas fezes.
No entanto, nas favelas do Rio,
não são bananas que são atiradas aos negros, são balas, e balas que não são as
mesmas atiradas nos manifestantes de ocasião, aqueles mesmo que ano passado
estavam nas ruas e hoje nada fazem mais do que postar hashtags de
#nãovaitercopa; um outro exemplo de como a internet provoca uma ampla mimese,
uma ampla imitação imediata (nenhuma critica a essas manifestações, que foram,
alias, muitíssimo validas, mas que seriam ainda mais, se toda aquela massa
ferrenha não tivesse aferrecido seu fervor em menos de um ano); as balas que
são lançadas aos negros da favela, são de verdade, matam, e produzem corpos que
jamais serão encontrados. Todos os dias, o racismo produz mortos, filhos órfãos,
mães desesperadas que jamais verão seus filhos novamente, e que muitas vezes,
não possuem nem mesmo um corpo a velar.
Achar que um simples # vai mudar
toda uma ideologia é como reproduzir a visão inocente de que uma curtida vai
tirar os mendigos da rua, ou vai fazer os milhares que passam fome ter um prato
de comida em suas mesas; é necessária toda uma mudança ideológica, toda uma
reforma política e social. Toda uma reforma política e social que deve começar
dos indivíduos.
Enquanto houver pessoas que tem
medo de negros por sua cor; ou pessoas duvidando da capacidade deles, por causa
de um pouco mais de melanina em suas peles; enquanto houver a continua
associação da cor da pele com a marginalidade; bananas serão a menor das
preocupações. O mundo continuará a ser injusto.
O que significa então, postar
fotos no instagran comendo bananas? Lutar contra o racismo? Ou simplesmente
aderir a repetição de um modismo cujo teor filosófico não se foi pensado?
Porque pensar cansa, pensar dói; repetir é muito mais simples, é muito mais
fácil. É o que fazem os macacos; e no fundo, estamos sendo, de fato, todos
macacos.
Lutar contra o racismo comendo
bananas é o mesmo que lutar contra a agressão a mulher batendo nelas e rindo,
divertindo-se com a banalização do ato; é lutar contra a homofobia chamando os
gays de viado, como se isso não fosse, de fato, uma ofensa. Não é resignificar
um termo para que ele seja menos ofensivo; é banalizá-lo, de forma que seu real
caráter não seja de fato percebido, é mascarar a raiz do problema. Lutar contra
o racismo comendo bananas em fotos nas redes sociais, é esquecer que o assunto
é sério e que há pessoas em plena era contemporânea que ainda morrem por isso, resvalados a favela do esquecimento.
Me poupem de suas bananas; todos
queremos respeito.

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