A “rasificação” da militância
A
militância está em crise e devo dizer que um colapso não demorará muito; e ela
chegou a este ponto, entre outras muitas razões, porque se tornou cool militar a favor de causas sociais, se
constituiu uma tribo cujo ethos é militar a favor de toda e qualquer minoria,
numa desconstrução social de diversas ideologias tradicionais; defender estas
pessoas que estão à margem da sociedade não é o problema, certas ideologias que
mantêm o status de determinadas classes ao detrimento de outras é são só necessário
como imprescindível para o futuro global.
A
questão está na forma como essa massificação atingiu, através da internet,
patamares de moda; é preciso pertencer à tribo, é preciso militar, no entanto,
muitos não estão dispostos a junto a essa necessidade atrelar também
profundidade à discussão, aprender, ouvir, estudar através dos amplos estudos acadêmicos
que temos em diversas áreas e principalmente: ouvir os membros pertencentes
àquela minoria. Sem isto, a discussão perde sua força argumentativa e passa a
caminhar puramente pelo viés da opinião, e enquanto os defensores das minorias
se perdem em discussões intermináveis, muita vezes carentes de maturidade, a
direita conservadora detentora do poder é extremamente organizada, por hora.
Toda
essa questão da criação desta tribo militante, cria dois tipos extremamente característicos
que constantemente se enfrentam no viés ideológico dos fóruns de discussão da
internet; tornando-o um campo de enfrentamento que muitas vezes não passa
disso, um enfrentamento de egos conflitantes, tornando infértil um ambiente
outrora muito efetivo de desconstrução de idéias.
O
primeiro destes tipos é o militante forçoso; aquele que não pertence a minoria
em questão, mas toma para si o discurso de defesa desta, mas é incapaz de ouvir
os membros desta nas questões ideológicas desta minoria; tal individuo
preocupa-se tanto com o status quo de
pertencer a determinada militância, pouco preocupando-se em aprender sobre ela,
que dissemina idéias, algumas vezes até mesmo dicotômicas e, vejam só, muitas
vezes são agentes de silenciamento e engendram ações de preconceito contra as próprias
minorias que buscavam defender quando contrariados.
Um
exemplo clássico disto é o homem feministo; aquele que toma para si o termo de “feminista”,
a respeito de toda discussão entre os grupos feministas se este termo é valido
para homens ou não. A discussão do termo não me cabe, se isto incorre de
protagonismo ou não do movimento feminista é algo a ser deliberado por
mulheres, e é daí que vem o problema. Que validade tem um homem proclamar-se
feminista e ao mesmo tempo negar veementemente o direito da mulher de negar-lhe
um termo do movimento que pertence a ela? Que valor tem a militância que ignora
do próprio protagonista do movimento pretendido?
Neste
tempo de discussão em fóruns na internet; cheguei a ver muitas vezes homens que
lutaram com unhas e dentes pelo termo feminista, que ao meu ver, é algo que
você pode abrir mão de, e incorrer de tentativas de silenciamento, seja este acadêmico
ou de forma brusca mesmo, leia-se aqui o velho uso da palavra histérica(que tem
raízes profundamente machistas), ou frases de baixo calão envolvendo o ridículo
mito da inveja peniana. A militância por militar cria indivíduos que minam por
dentro o movimento.
E
quem nunca conheceu o amigo de um LGBT que se toma ao direito de militar a
favor da causa, mas passa por cima de LGBTs que não concordam com seu
pensamento?
O
outro lado, que por algum motivo é geralmente o mais citado e criticado, são os
militantes pertencentes as minorias, mas que não possuem abertura de dialogo;
pessoas despreparadas emocionalmente ou mesmo argumentativamente, cuja única
função dentro da argumentação é citar frase do tipo “male tears”, “ta cagando
regra”, as frases prontas da militância que muitas vezes são merecidas, mas
raramente efetivas. Há também neste ponto o problema do fechamento do dialogo,
a aceitação do ethos, enquanto ethos, que não pode, de forma alguma, ser
questionado: o que gera um problema epistemológico incrível, a minoria que
espera inocentemente que a maioria acate suas “ordens” pacificamente.
O
código do politicamente correto dentro das militâncias, parece partir do
pressuposto que aquele que é pertencente a minoria é sempre a vitima, e que por
isso sua voz e unicamente sua voz é o pendor da balança entre o que é
preconceito e o que não é. O mundo real não funciona assim, um gay não é
definido por sua sexualidade, seu caráter, ou mesmo seus gatilhos emocionais,
são definidos por uma série de outros fatores; há casos que devem ser discutidos,
devem ser postos em questão, e mesmo os casos que são claramente preconceito,
devem ser debatidos não de uma maneira impositiva, mas numa pose de
desconstrução.
Há
casos inegáveis de pessoas que se utilizam de um vitimismo, muito perigoso e
que enfraquece a militância; conheço caso de gays que descaradamente afirmaram
que algo era homofobia sem ser, simplesmente para escapar de determinada
situação desfavorável a estes (inclusive tal pratica me foi sugerida mais de
uma vez), o que dizer em tais casos? Deve-se deixar este tipo de ação a revelia
porque ela se constitui num caso de exceção?
Ou
mesmo deve-se esperar que o opressor aceite nossa opinião que é dada de maneira
desconexa, contra-argumentativa e muitas vezes arrogante? Isto não vai
acontecer, mesmo o opressor máximo é uma entidade rara; o homem cis hetero,
branco, magro e bonito é algo tão raro quanto a vitima absoluta; a grande
maioria de nós temos um pé no opressor e um no oprimido; apostar numa discussão
que decidirá quem sofreu mais historicamente é luta sem vencedor. Apenas a
discussão argumentativa vence certas mentes, e outras só mudarão com pressão
social; memes não resolvem muita coisa.
Um
grande adendo antes de encerrar o post vai para duas questões que eu não citei,
mas que são cruciais: uma é não estou defendendo de forma alguma que o ativismo
deve ser pacifico em todas as suas formas, mulheres foram queimadas,
torturadas, escravizadas; são até hoje mutiladas. Gays e negros igualmente. Gente,
muita gente, sofreu por causa da opressão milenar, logo, certos ativismos
feitos para chocar, ou mesmo de forma muito brusca, são não só justificáveis
(quando não incorrem de violência física a outrem), como necessários. Não se pode comparar certas ações do oprimido,
com as do opressor; fazê-lo é comparar uma pedra que é jogada à um canhão.
Tais
ações, como performances artísticas no meio do Vaticano, mesmo certas ações
tidas pelas chamadas feministas radicais em relação a homens cis devem ser
entendidos como gritos por visibilidade e mesmo como uma defesa ferrenha criada
por todos esses anos de opressão Uma medida plausível, mas que não deve ser
usada como regra, pois como indivíduos de uma sociedade civilizada, devemos
usar, então de argumentação para embasar nossas opiniões.
Outra
questão deste adendo, um tanto mais delicada, é o fato de que oprimido algum
tem obrigação de ser didático com opressor em potencial; não creio que haja
essa obrigação e dentro dela há casos e casos de ambos os lados; para alguém
que tem muitos gatilhos emocionais dentro de determinada discussão, se ela não
se sente apta a promover uma discussão saudável, creio que seria melhor para
ela evitar o desgaste emocional que uma discussão leva; segura, respira,
escreve, guarda sua opinião fomentada no momento de raiva e escreve
posteriormente em forma de nota, ou mesmo um post, escrever com raiva é muito
complicado e só vai te desgastar. Ninguém é obrigado a ser didático com opressor,
mas as vezes não militar em determinado momento também é uma forma de militância.
Entretanto,
há pessoas que estão na discussão para serem ouvidas e só; é gente com ego inflado
e que argumento nenhum vai resolver. Se você, membro da minoria, se dispôs a
explicar uma vez, e a pessoa ainda assim continua a crer que ela está certa;
você está mais que apto a largar a postura argumentativa, certas pessoas só
aprendem no grito mesmo.
O
melhor método para resolver esse problema da cooltização e da cultização da é
justamente se informar, conversar com pessoas pertencentes a determinadas
minorias, ou mesmo daquelas o que você pertence; e se portar, não de maneira
doutrinária em função do outro, mas primeiramente ouvir e depois, se for o
caso, rebater as opiniões. É preocupar-se, antes de militar, em saber por que
se está fazendo isso.
É
primeiramente saber que: só um indivíduo capaz de pensar, e repensar, por si
mesmo determinada questão é capaz de fornecer argumentos para embasá-la; é
pegar as frases prontas do ativismo e incorporá-las, refletir sobre elas, em
vez de simplesmente reproduzi-las.
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