terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A “rasificação” da militância



A “rasificação” da militância


A militância está em crise e devo dizer que um colapso não demorará muito; e ela chegou a este ponto, entre outras muitas razões, porque se tornou cool militar a favor de causas sociais, se constituiu uma tribo cujo ethos é militar a favor de toda e qualquer minoria, numa desconstrução social de diversas ideologias tradicionais; defender estas pessoas que estão à margem da sociedade não é o problema, certas ideologias que mantêm o status de determinadas classes ao detrimento de outras é são só necessário como imprescindível para o futuro global.
A questão está na forma como essa massificação atingiu, através da internet, patamares de moda; é preciso pertencer à tribo, é preciso militar, no entanto, muitos não estão dispostos a junto a essa necessidade atrelar também profundidade à discussão, aprender, ouvir, estudar através dos amplos estudos acadêmicos que temos em diversas áreas e principalmente: ouvir os membros pertencentes àquela minoria. Sem isto, a discussão perde sua força argumentativa e passa a caminhar puramente pelo viés da opinião, e enquanto os defensores das minorias se perdem em discussões intermináveis, muita vezes carentes de maturidade, a direita conservadora detentora do poder é extremamente organizada, por hora.
Toda essa questão da criação desta tribo militante, cria dois tipos extremamente característicos que constantemente se enfrentam no viés ideológico dos fóruns de discussão da internet; tornando-o um campo de enfrentamento que muitas vezes não passa disso, um enfrentamento de egos conflitantes, tornando infértil um ambiente outrora muito efetivo de desconstrução de idéias.
O primeiro destes tipos é o militante forçoso; aquele que não pertence a minoria em questão, mas toma para si o discurso de defesa desta, mas é incapaz de ouvir os membros desta nas questões ideológicas desta minoria; tal individuo preocupa-se tanto com o status quo de pertencer a determinada militância, pouco preocupando-se em aprender sobre ela, que dissemina idéias, algumas vezes até mesmo dicotômicas e, vejam só, muitas vezes são agentes de silenciamento e engendram ações de preconceito contra as próprias minorias que buscavam defender quando contrariados.
Um exemplo clássico disto é o homem feministo; aquele que toma para si o termo de “feminista”, a respeito de toda discussão entre os grupos feministas se este termo é valido para homens ou não. A discussão do termo não me cabe, se isto incorre de protagonismo ou não do movimento feminista é algo a ser deliberado por mulheres, e é daí que vem o problema. Que validade tem um homem proclamar-se feminista e ao mesmo tempo negar veementemente o direito da mulher de negar-lhe um termo do movimento que pertence a ela? Que valor tem a militância que ignora do próprio protagonista do movimento pretendido?
Neste tempo de discussão em fóruns na internet; cheguei a ver muitas vezes homens que lutaram com unhas e dentes pelo termo feminista, que ao meu ver, é algo que você pode abrir mão de, e incorrer de tentativas de silenciamento, seja este acadêmico ou de forma brusca mesmo, leia-se aqui o velho uso da palavra histérica(que tem raízes profundamente machistas), ou frases de baixo calão envolvendo o ridículo mito da inveja peniana. A militância por militar cria indivíduos que minam por dentro o movimento.
E quem nunca conheceu o amigo de um LGBT que se toma ao direito de militar a favor da causa, mas passa por cima de LGBTs que não concordam com seu pensamento?
O outro lado, que por algum motivo é geralmente o mais citado e criticado, são os militantes pertencentes as minorias, mas que não possuem abertura de dialogo; pessoas despreparadas emocionalmente ou mesmo argumentativamente, cuja única função dentro da argumentação é citar frase do tipo “male tears”, “ta cagando regra”, as frases prontas da militância que muitas vezes são merecidas, mas raramente efetivas. Há também neste ponto o problema do fechamento do dialogo, a aceitação do ethos, enquanto ethos, que não pode, de forma alguma, ser questionado: o que gera um problema epistemológico incrível, a minoria que espera inocentemente que a maioria acate suas “ordens” pacificamente.
O código do politicamente correto dentro das militâncias, parece partir do pressuposto que aquele que é pertencente a minoria é sempre a vitima, e que por isso sua voz e unicamente sua voz é o pendor da balança entre o que é preconceito e o que não é. O mundo real não funciona assim, um gay não é definido por sua sexualidade, seu caráter, ou mesmo seus gatilhos emocionais, são definidos por uma série de outros fatores; há casos que devem ser discutidos, devem ser postos em questão, e mesmo os casos que são claramente preconceito, devem ser debatidos não de uma maneira impositiva, mas numa pose de desconstrução.
Há casos inegáveis de pessoas que se utilizam de um vitimismo, muito perigoso e que enfraquece a militância; conheço caso de gays que descaradamente afirmaram que algo era homofobia sem ser, simplesmente para escapar de determinada situação desfavorável a estes (inclusive tal pratica me foi sugerida mais de uma vez), o que dizer em tais casos? Deve-se deixar este tipo de ação a revelia porque ela se constitui num caso de exceção?
Ou mesmo deve-se esperar que o opressor aceite nossa opinião que é dada de maneira desconexa, contra-argumentativa e muitas vezes arrogante? Isto não vai acontecer, mesmo o opressor máximo é uma entidade rara; o homem cis hetero, branco, magro e bonito é algo tão raro quanto a vitima absoluta; a grande maioria de nós temos um pé no opressor e um no oprimido; apostar numa discussão que decidirá quem sofreu mais historicamente é luta sem vencedor. Apenas a discussão argumentativa vence certas mentes, e outras só mudarão com pressão social; memes não resolvem muita coisa.
Um grande adendo antes de encerrar o post vai para duas questões que eu não citei, mas que são cruciais: uma é não estou defendendo de forma alguma que o ativismo deve ser pacifico em todas as suas formas, mulheres foram queimadas, torturadas, escravizadas; são até hoje mutiladas. Gays e negros igualmente. Gente, muita gente, sofreu por causa da opressão milenar, logo, certos ativismos feitos para chocar, ou mesmo de forma muito brusca, são não só justificáveis (quando não incorrem de violência física a outrem), como necessários.  Não se pode comparar certas ações do oprimido, com as do opressor; fazê-lo é comparar uma pedra que é jogada à um canhão.
Tais ações, como performances artísticas no meio do Vaticano, mesmo certas ações tidas pelas chamadas feministas radicais em relação a homens cis devem ser entendidos como gritos por visibilidade e mesmo como uma defesa ferrenha criada por todos esses anos de opressão Uma medida plausível, mas que não deve ser usada como regra, pois como indivíduos de uma sociedade civilizada, devemos usar, então de argumentação para embasar nossas opiniões.
Outra questão deste adendo, um tanto mais delicada, é o fato de que oprimido algum tem obrigação de ser didático com opressor em potencial; não creio que haja essa obrigação e dentro dela há casos e casos de ambos os lados; para alguém que tem muitos gatilhos emocionais dentro de determinada discussão, se ela não se sente apta a promover uma discussão saudável, creio que seria melhor para ela evitar o desgaste emocional que uma discussão leva; segura, respira, escreve, guarda sua opinião fomentada no momento de raiva e escreve posteriormente em forma de nota, ou mesmo um post, escrever com raiva é muito complicado e só vai te desgastar. Ninguém é obrigado a ser didático com opressor, mas as vezes não militar em determinado momento também é uma forma de militância.
Entretanto, há pessoas que estão na discussão para serem ouvidas e só; é gente com ego inflado e que argumento nenhum vai resolver. Se você, membro da minoria, se dispôs a explicar uma vez, e a pessoa ainda assim continua a crer que ela está certa; você está mais que apto a largar a postura argumentativa, certas pessoas só aprendem no grito mesmo.
O melhor método para resolver esse problema da cooltização e da cultização da é justamente se informar, conversar com pessoas pertencentes a determinadas minorias, ou mesmo daquelas o que você pertence; e se portar, não de maneira doutrinária em função do outro, mas primeiramente ouvir e depois, se for o caso, rebater as opiniões. É preocupar-se, antes de militar, em saber por que se está fazendo isso.
É primeiramente saber que: só um indivíduo capaz de pensar, e repensar, por si mesmo determinada questão é capaz de fornecer argumentos para embasá-la; é pegar as frases prontas do ativismo e incorporá-las, refletir sobre elas, em vez de simplesmente reproduzi-las.

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