terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O mito é uma mentira?



O Mito


É extremamente comum o uso da palavra “mito” na contemporaneidade, isto é, nos nossos dias, como algo que faça parte do imaginário, do irreal; a grosso modo, o mito é visto no senso comum como sendo uma ficção, uma mentira; no entanto, será mesmo que está é a melhor forma de analisarmos o mito? O que é o mito?
Mito é uma narrativa, uma narrativa de caráter simbólico-imagético que visa a perpetuação de valores de uma determinada cultura; em outras palavras:  mito é uma história utilizada para passar ensinamentos de um determinado povo ou sociedade através de imagens e símbolos; logo, podemos perceber que, o mito não é uma mentira, ou mesmo uma simples ficção, ele é, antes de tudo, um recurso de perpetuação de valores, de transmissão de conhecimento, uma outra forma de ensinar que visa a absorção do conteúdo.
Na contemporaneidade podemos encontrar diversos mitos modernos; assim como a revisão de mitos antigos que se incorporam, isto é, passam a fazer parte do modo de pensar da sociedade atual; um bom exemplo disto é um dos mais recentes filmes da Disney, Frozen que marca a mudança de valor que ocorreu nas últimas décadas na sociedade contemporânea.
Analisando Frozen, bem como Valente, também lançado recentemente pela Pixar, percebemos que por detrás do pano de fundo do entretenimento há um valor, um conhecimento, que é passado através do filme, do mito: a questão da heroína, da mulher guerreira que não tem em seu objetivo principal casar-se, a da mulher protagonista de sua história. Em contraposição ao valor dos anos 50, 60 que via as mulheres como as donas de casa, e os desenhos animados vão refletir o valor das princesas que esperam serem salvas até bem recentemente, temos o papel da princesa Elza que é protagonista da história e de sua irmã que de maneira alguma é simples coadjuvante de uma história lutada por homens.
Além disso, vemos em diversos desenhos animados valores que são importantes para a sociedade atual e que são ensinados às crianças – e porque não dizer, adultos? – como companheirismo, importância da amizade, do amor, da honestidade. É isto que o mito faz, ele torna possível à conexão entre determinado valor e o entendimento das pessoas.
Em seu livro O Poder do Mito, que é a transcrição de uma imensa entrevista, Joseph Cambell falará sobre a importância do mito, não só em sociedades orais como eram o Egito, a Grécia antiga, mas também em nossa sociedade, ele dirá:
“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.”
Através disso, percebemos que nosso primeiro embargo cai por terra: o mito não é uma mentira, mas uma segunda forma de recontar a “verdade”, ou seja, uma outra forma de transmitir conhecimento.
Então, qual a grande importância do mito dentro de uma sociedade como a grega? Acontece que a Grécia Antiga era uma sociedade prioritariamente oral, isto significa que todo o conhecimento era passado através da contação de histórias, poucos sabiam ler e aqueles parcos que sabiam, havia aprendiam também através do mito.
A mitologia grega ensinava-os não tão somente que o universo veio do chaos, como falava sua religião, mas da importância da sociedade, da divisão social para a manutenção do equilíbrio que mantinha suas vidas; através de histórias como a de Hercules, os gregos aprendiam não só a importância da coragem, mas também a da prudência e do respeito a seus deuses.
Através de histórias trágicas, como a de Édipo, por exemplo; o grego aprendia lições sobre o que não fazer, para que não sofresse as punições que determinado personagem sofrera, mas também servia, através da visão daqueles mitos dentro de peças de teatro, para que víssemos nossas semelhanças com determinados personagens e percebamos que também somos capazes de cometer atos considerados prejudiciais se não nos controlarmos.
Quem nunca se sentiu atraído pelo personagem de um livro? Ou comovido com a história de uma novela? Este é o efeito do mito: ele nos ensina não através da razão, mas de nossa conexão com os personagens da trama. Por isso, da próxima vez que lermos sobre um mito, não encaremos aquilo como uma história participante do passado, mas como a forma de um povo de passar os seus ensinamentos, suas tradições. O mito é, sobretudo, parte da tentativa humana de continuar existindo.

*texto escrito para o Ensino Médio do Colégio Liceu de Messejana através do PIBID

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