"A
beleza está nos olhos de quem vê", já dizia o antigo ditado, que me
perdoem a franqueza, mas é mentira; beleza é um padrão eurocêntrico incutido em
nossas cabeças por uma cultura colonizada - ainda hoje - pelo modo branco de
produzir subjetividade. Negar que o jovem tailandês é "feio" é negar
dois dos principais pontos desta história, a primeira é a questão do quão é
mesquinho (não que eu nunca tenha feito, não que você também não o tenha)
pautar um relacionamento num quesito tão ultrapassado e reacionário quanto a
beleza culturalmente estabelecida, pior que isto, é cruel, não que não façamos
isto todos os dias, crer e até mesmo vociferar contra outros nossa visão fútil
e eugênica de que é necessário se entrar ou se pertencer à um padrão para se
encontrar o amor. O relacionamento dos dois é um tapa na cara, não porque
quebra o padrão, mas porque revela uma verdade ainda mais interna: sentimo-nos
traídos em nossas extensas horas na academia, em nossas dietas, em nossas
tentativas de impor a nós mesmos o padrão estabelecido, por alguém que,
provavelmente não tendo passado por todo este ritual, conseguiu encontrar a
felicidade nos braços de alguém que, com nossa visão afunilada, seria
provavelmente o príncipe dos sonhos.
Justificar a
relação dos dois com um "talvez o jovem tailandês faça um sexo melhor que
muita gente", é ainda assim pautar o relacionamento numa relação de
equilíbrio de balança; é crer que é necessário foder bem para diminuir essa
distância de beleza entre os dois, de atenuar a falta do padrão. Não. Não há
falta alguma a ser corrigida a não ser nossa visão de que é necessário um meio
atenuante. O que resta é aceitar o amor, e perceber que o jovem europeu viu no
garoto algo que quase ninguém viu: um ser humano digno de seu amor.
O segundo
ponto desta história é perceber o quão o meio gay está impregnado destes
padrões; para uma minoria vista como pecaminosa é quase como mister se manter
um determinado padrão socialmente considerado elevado, também numa tentativa de
compensar a “falta de moralidade”. O homossexual é sempre visto, inclusive por
si mesmo, como aquele que deve se esforçar mais nos estudos que os irmãos, que
tem de ter o corpo sarado, ser heteronormativo, ou então, “ninguém jamais o irá
querer”.
É perceber
que o oprimido, não é simplesmente uma vitima passiva da opressão de outrem, é,
sobretudo, vitima da própria influência do seu olhar envenenado pela cultura do
opressor em si mesmo, uma arma desta cultura contra seus semelhantes. De nada
adianta levantar bandeiras de orgulho e não se derrubar barreiras ainda mais
antigas.
A
homossexualidade poderá ser até mesmo um dia tolerada dentro da sociedade em
que vivemos, mas enquanto não questionarmos o verdadeiro valor desta cultura
baseada em beleza e padrão, jamais seremos aceitos, nem por nós mesmos. Porque
padrão pressupõe sempre a falta dele e uma obrigatoriedade de se suprir esta
falta.
Enquanto não
derrubarmos em nós mesmos os muros impostos por essa cultura; nosso ato de
levantar a bandeira não será nada mais que uma rendição.
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