quarta-feira, 22 de abril de 2015

O inferno é o outro dentro de nós ou Porque o amor incomoda?





"A beleza está nos olhos de quem vê", já dizia o antigo ditado, que me perdoem a franqueza, mas é mentira; beleza é um padrão eurocêntrico incutido em nossas cabeças por uma cultura colonizada - ainda hoje - pelo modo branco de produzir subjetividade. Negar que o jovem tailandês é "feio" é negar dois dos principais pontos desta história, a primeira é a questão do quão é mesquinho (não que eu nunca tenha feito, não que você também não o tenha) pautar um relacionamento num quesito tão ultrapassado e reacionário quanto a beleza culturalmente estabelecida, pior que isto, é cruel, não que não façamos isto todos os dias, crer e até mesmo vociferar contra outros nossa visão fútil e eugênica de que é necessário se entrar ou se pertencer à um padrão para se encontrar o amor. O relacionamento dos dois é um tapa na cara, não porque quebra o padrão, mas porque revela uma verdade ainda mais interna: sentimo-nos traídos em nossas extensas horas na academia, em nossas dietas, em nossas tentativas de impor a nós mesmos o padrão estabelecido, por alguém que, provavelmente não tendo passado por todo este ritual, conseguiu encontrar a felicidade nos braços de alguém que, com nossa visão afunilada, seria provavelmente o príncipe dos sonhos.
Justificar a relação dos dois com um "talvez o jovem tailandês faça um sexo melhor que muita gente", é ainda assim pautar o relacionamento numa relação de equilíbrio de balança; é crer que é necessário foder bem para diminuir essa distância de beleza entre os dois, de atenuar a falta do padrão. Não. Não há falta alguma a ser corrigida a não ser nossa visão de que é necessário um meio atenuante. O que resta é aceitar o amor, e perceber que o jovem europeu viu no garoto algo que quase ninguém viu: um ser humano digno de seu amor.
O segundo ponto desta história é perceber o quão o meio gay está impregnado destes padrões; para uma minoria vista como pecaminosa é quase como mister se manter um determinado padrão socialmente considerado elevado, também numa tentativa de compensar a “falta de moralidade”. O homossexual é sempre visto, inclusive por si mesmo, como aquele que deve se esforçar mais nos estudos que os irmãos, que tem de ter o corpo sarado, ser heteronormativo, ou então, “ninguém jamais o irá querer”.
É perceber que o oprimido, não é simplesmente uma vitima passiva da opressão de outrem, é, sobretudo, vitima da própria influência do seu olhar envenenado pela cultura do opressor em si mesmo, uma arma desta cultura contra seus semelhantes. De nada adianta levantar bandeiras de orgulho e não se derrubar barreiras ainda mais antigas.
A homossexualidade poderá ser até mesmo um dia tolerada dentro da sociedade em que vivemos, mas enquanto não questionarmos o verdadeiro valor desta cultura baseada em beleza e padrão, jamais seremos aceitos, nem por nós mesmos. Porque padrão pressupõe sempre a falta dele e uma obrigatoriedade de se suprir esta falta.
Enquanto não derrubarmos em nós mesmos os muros impostos por essa cultura; nosso ato de levantar a bandeira não será nada mais que uma rendição.

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