quarta-feira, 22 de abril de 2015

O inferno é o outro dentro de nós ou Porque o amor incomoda?





"A beleza está nos olhos de quem vê", já dizia o antigo ditado, que me perdoem a franqueza, mas é mentira; beleza é um padrão eurocêntrico incutido em nossas cabeças por uma cultura colonizada - ainda hoje - pelo modo branco de produzir subjetividade. Negar que o jovem tailandês é "feio" é negar dois dos principais pontos desta história, a primeira é a questão do quão é mesquinho (não que eu nunca tenha feito, não que você também não o tenha) pautar um relacionamento num quesito tão ultrapassado e reacionário quanto a beleza culturalmente estabelecida, pior que isto, é cruel, não que não façamos isto todos os dias, crer e até mesmo vociferar contra outros nossa visão fútil e eugênica de que é necessário se entrar ou se pertencer à um padrão para se encontrar o amor. O relacionamento dos dois é um tapa na cara, não porque quebra o padrão, mas porque revela uma verdade ainda mais interna: sentimo-nos traídos em nossas extensas horas na academia, em nossas dietas, em nossas tentativas de impor a nós mesmos o padrão estabelecido, por alguém que, provavelmente não tendo passado por todo este ritual, conseguiu encontrar a felicidade nos braços de alguém que, com nossa visão afunilada, seria provavelmente o príncipe dos sonhos.
Justificar a relação dos dois com um "talvez o jovem tailandês faça um sexo melhor que muita gente", é ainda assim pautar o relacionamento numa relação de equilíbrio de balança; é crer que é necessário foder bem para diminuir essa distância de beleza entre os dois, de atenuar a falta do padrão. Não. Não há falta alguma a ser corrigida a não ser nossa visão de que é necessário um meio atenuante. O que resta é aceitar o amor, e perceber que o jovem europeu viu no garoto algo que quase ninguém viu: um ser humano digno de seu amor.
O segundo ponto desta história é perceber o quão o meio gay está impregnado destes padrões; para uma minoria vista como pecaminosa é quase como mister se manter um determinado padrão socialmente considerado elevado, também numa tentativa de compensar a “falta de moralidade”. O homossexual é sempre visto, inclusive por si mesmo, como aquele que deve se esforçar mais nos estudos que os irmãos, que tem de ter o corpo sarado, ser heteronormativo, ou então, “ninguém jamais o irá querer”.
É perceber que o oprimido, não é simplesmente uma vitima passiva da opressão de outrem, é, sobretudo, vitima da própria influência do seu olhar envenenado pela cultura do opressor em si mesmo, uma arma desta cultura contra seus semelhantes. De nada adianta levantar bandeiras de orgulho e não se derrubar barreiras ainda mais antigas.
A homossexualidade poderá ser até mesmo um dia tolerada dentro da sociedade em que vivemos, mas enquanto não questionarmos o verdadeiro valor desta cultura baseada em beleza e padrão, jamais seremos aceitos, nem por nós mesmos. Porque padrão pressupõe sempre a falta dele e uma obrigatoriedade de se suprir esta falta.
Enquanto não derrubarmos em nós mesmos os muros impostos por essa cultura; nosso ato de levantar a bandeira não será nada mais que uma rendição.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O mito é uma mentira?



O Mito


É extremamente comum o uso da palavra “mito” na contemporaneidade, isto é, nos nossos dias, como algo que faça parte do imaginário, do irreal; a grosso modo, o mito é visto no senso comum como sendo uma ficção, uma mentira; no entanto, será mesmo que está é a melhor forma de analisarmos o mito? O que é o mito?
Mito é uma narrativa, uma narrativa de caráter simbólico-imagético que visa a perpetuação de valores de uma determinada cultura; em outras palavras:  mito é uma história utilizada para passar ensinamentos de um determinado povo ou sociedade através de imagens e símbolos; logo, podemos perceber que, o mito não é uma mentira, ou mesmo uma simples ficção, ele é, antes de tudo, um recurso de perpetuação de valores, de transmissão de conhecimento, uma outra forma de ensinar que visa a absorção do conteúdo.
Na contemporaneidade podemos encontrar diversos mitos modernos; assim como a revisão de mitos antigos que se incorporam, isto é, passam a fazer parte do modo de pensar da sociedade atual; um bom exemplo disto é um dos mais recentes filmes da Disney, Frozen que marca a mudança de valor que ocorreu nas últimas décadas na sociedade contemporânea.
Analisando Frozen, bem como Valente, também lançado recentemente pela Pixar, percebemos que por detrás do pano de fundo do entretenimento há um valor, um conhecimento, que é passado através do filme, do mito: a questão da heroína, da mulher guerreira que não tem em seu objetivo principal casar-se, a da mulher protagonista de sua história. Em contraposição ao valor dos anos 50, 60 que via as mulheres como as donas de casa, e os desenhos animados vão refletir o valor das princesas que esperam serem salvas até bem recentemente, temos o papel da princesa Elza que é protagonista da história e de sua irmã que de maneira alguma é simples coadjuvante de uma história lutada por homens.
Além disso, vemos em diversos desenhos animados valores que são importantes para a sociedade atual e que são ensinados às crianças – e porque não dizer, adultos? – como companheirismo, importância da amizade, do amor, da honestidade. É isto que o mito faz, ele torna possível à conexão entre determinado valor e o entendimento das pessoas.
Em seu livro O Poder do Mito, que é a transcrição de uma imensa entrevista, Joseph Cambell falará sobre a importância do mito, não só em sociedades orais como eram o Egito, a Grécia antiga, mas também em nossa sociedade, ele dirá:
“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.”
Através disso, percebemos que nosso primeiro embargo cai por terra: o mito não é uma mentira, mas uma segunda forma de recontar a “verdade”, ou seja, uma outra forma de transmitir conhecimento.
Então, qual a grande importância do mito dentro de uma sociedade como a grega? Acontece que a Grécia Antiga era uma sociedade prioritariamente oral, isto significa que todo o conhecimento era passado através da contação de histórias, poucos sabiam ler e aqueles parcos que sabiam, havia aprendiam também através do mito.
A mitologia grega ensinava-os não tão somente que o universo veio do chaos, como falava sua religião, mas da importância da sociedade, da divisão social para a manutenção do equilíbrio que mantinha suas vidas; através de histórias como a de Hercules, os gregos aprendiam não só a importância da coragem, mas também a da prudência e do respeito a seus deuses.
Através de histórias trágicas, como a de Édipo, por exemplo; o grego aprendia lições sobre o que não fazer, para que não sofresse as punições que determinado personagem sofrera, mas também servia, através da visão daqueles mitos dentro de peças de teatro, para que víssemos nossas semelhanças com determinados personagens e percebamos que também somos capazes de cometer atos considerados prejudiciais se não nos controlarmos.
Quem nunca se sentiu atraído pelo personagem de um livro? Ou comovido com a história de uma novela? Este é o efeito do mito: ele nos ensina não através da razão, mas de nossa conexão com os personagens da trama. Por isso, da próxima vez que lermos sobre um mito, não encaremos aquilo como uma história participante do passado, mas como a forma de um povo de passar os seus ensinamentos, suas tradições. O mito é, sobretudo, parte da tentativa humana de continuar existindo.

*texto escrito para o Ensino Médio do Colégio Liceu de Messejana através do PIBID

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A “rasificação” da militância



A “rasificação” da militância


A militância está em crise e devo dizer que um colapso não demorará muito; e ela chegou a este ponto, entre outras muitas razões, porque se tornou cool militar a favor de causas sociais, se constituiu uma tribo cujo ethos é militar a favor de toda e qualquer minoria, numa desconstrução social de diversas ideologias tradicionais; defender estas pessoas que estão à margem da sociedade não é o problema, certas ideologias que mantêm o status de determinadas classes ao detrimento de outras é são só necessário como imprescindível para o futuro global.
A questão está na forma como essa massificação atingiu, através da internet, patamares de moda; é preciso pertencer à tribo, é preciso militar, no entanto, muitos não estão dispostos a junto a essa necessidade atrelar também profundidade à discussão, aprender, ouvir, estudar através dos amplos estudos acadêmicos que temos em diversas áreas e principalmente: ouvir os membros pertencentes àquela minoria. Sem isto, a discussão perde sua força argumentativa e passa a caminhar puramente pelo viés da opinião, e enquanto os defensores das minorias se perdem em discussões intermináveis, muita vezes carentes de maturidade, a direita conservadora detentora do poder é extremamente organizada, por hora.
Toda essa questão da criação desta tribo militante, cria dois tipos extremamente característicos que constantemente se enfrentam no viés ideológico dos fóruns de discussão da internet; tornando-o um campo de enfrentamento que muitas vezes não passa disso, um enfrentamento de egos conflitantes, tornando infértil um ambiente outrora muito efetivo de desconstrução de idéias.
O primeiro destes tipos é o militante forçoso; aquele que não pertence a minoria em questão, mas toma para si o discurso de defesa desta, mas é incapaz de ouvir os membros desta nas questões ideológicas desta minoria; tal individuo preocupa-se tanto com o status quo de pertencer a determinada militância, pouco preocupando-se em aprender sobre ela, que dissemina idéias, algumas vezes até mesmo dicotômicas e, vejam só, muitas vezes são agentes de silenciamento e engendram ações de preconceito contra as próprias minorias que buscavam defender quando contrariados.
Um exemplo clássico disto é o homem feministo; aquele que toma para si o termo de “feminista”, a respeito de toda discussão entre os grupos feministas se este termo é valido para homens ou não. A discussão do termo não me cabe, se isto incorre de protagonismo ou não do movimento feminista é algo a ser deliberado por mulheres, e é daí que vem o problema. Que validade tem um homem proclamar-se feminista e ao mesmo tempo negar veementemente o direito da mulher de negar-lhe um termo do movimento que pertence a ela? Que valor tem a militância que ignora do próprio protagonista do movimento pretendido?
Neste tempo de discussão em fóruns na internet; cheguei a ver muitas vezes homens que lutaram com unhas e dentes pelo termo feminista, que ao meu ver, é algo que você pode abrir mão de, e incorrer de tentativas de silenciamento, seja este acadêmico ou de forma brusca mesmo, leia-se aqui o velho uso da palavra histérica(que tem raízes profundamente machistas), ou frases de baixo calão envolvendo o ridículo mito da inveja peniana. A militância por militar cria indivíduos que minam por dentro o movimento.
E quem nunca conheceu o amigo de um LGBT que se toma ao direito de militar a favor da causa, mas passa por cima de LGBTs que não concordam com seu pensamento?
O outro lado, que por algum motivo é geralmente o mais citado e criticado, são os militantes pertencentes as minorias, mas que não possuem abertura de dialogo; pessoas despreparadas emocionalmente ou mesmo argumentativamente, cuja única função dentro da argumentação é citar frase do tipo “male tears”, “ta cagando regra”, as frases prontas da militância que muitas vezes são merecidas, mas raramente efetivas. Há também neste ponto o problema do fechamento do dialogo, a aceitação do ethos, enquanto ethos, que não pode, de forma alguma, ser questionado: o que gera um problema epistemológico incrível, a minoria que espera inocentemente que a maioria acate suas “ordens” pacificamente.
O código do politicamente correto dentro das militâncias, parece partir do pressuposto que aquele que é pertencente a minoria é sempre a vitima, e que por isso sua voz e unicamente sua voz é o pendor da balança entre o que é preconceito e o que não é. O mundo real não funciona assim, um gay não é definido por sua sexualidade, seu caráter, ou mesmo seus gatilhos emocionais, são definidos por uma série de outros fatores; há casos que devem ser discutidos, devem ser postos em questão, e mesmo os casos que são claramente preconceito, devem ser debatidos não de uma maneira impositiva, mas numa pose de desconstrução.
Há casos inegáveis de pessoas que se utilizam de um vitimismo, muito perigoso e que enfraquece a militância; conheço caso de gays que descaradamente afirmaram que algo era homofobia sem ser, simplesmente para escapar de determinada situação desfavorável a estes (inclusive tal pratica me foi sugerida mais de uma vez), o que dizer em tais casos? Deve-se deixar este tipo de ação a revelia porque ela se constitui num caso de exceção?
Ou mesmo deve-se esperar que o opressor aceite nossa opinião que é dada de maneira desconexa, contra-argumentativa e muitas vezes arrogante? Isto não vai acontecer, mesmo o opressor máximo é uma entidade rara; o homem cis hetero, branco, magro e bonito é algo tão raro quanto a vitima absoluta; a grande maioria de nós temos um pé no opressor e um no oprimido; apostar numa discussão que decidirá quem sofreu mais historicamente é luta sem vencedor. Apenas a discussão argumentativa vence certas mentes, e outras só mudarão com pressão social; memes não resolvem muita coisa.
Um grande adendo antes de encerrar o post vai para duas questões que eu não citei, mas que são cruciais: uma é não estou defendendo de forma alguma que o ativismo deve ser pacifico em todas as suas formas, mulheres foram queimadas, torturadas, escravizadas; são até hoje mutiladas. Gays e negros igualmente. Gente, muita gente, sofreu por causa da opressão milenar, logo, certos ativismos feitos para chocar, ou mesmo de forma muito brusca, são não só justificáveis (quando não incorrem de violência física a outrem), como necessários.  Não se pode comparar certas ações do oprimido, com as do opressor; fazê-lo é comparar uma pedra que é jogada à um canhão.
Tais ações, como performances artísticas no meio do Vaticano, mesmo certas ações tidas pelas chamadas feministas radicais em relação a homens cis devem ser entendidos como gritos por visibilidade e mesmo como uma defesa ferrenha criada por todos esses anos de opressão Uma medida plausível, mas que não deve ser usada como regra, pois como indivíduos de uma sociedade civilizada, devemos usar, então de argumentação para embasar nossas opiniões.
Outra questão deste adendo, um tanto mais delicada, é o fato de que oprimido algum tem obrigação de ser didático com opressor em potencial; não creio que haja essa obrigação e dentro dela há casos e casos de ambos os lados; para alguém que tem muitos gatilhos emocionais dentro de determinada discussão, se ela não se sente apta a promover uma discussão saudável, creio que seria melhor para ela evitar o desgaste emocional que uma discussão leva; segura, respira, escreve, guarda sua opinião fomentada no momento de raiva e escreve posteriormente em forma de nota, ou mesmo um post, escrever com raiva é muito complicado e só vai te desgastar. Ninguém é obrigado a ser didático com opressor, mas as vezes não militar em determinado momento também é uma forma de militância.
Entretanto, há pessoas que estão na discussão para serem ouvidas e só; é gente com ego inflado e que argumento nenhum vai resolver. Se você, membro da minoria, se dispôs a explicar uma vez, e a pessoa ainda assim continua a crer que ela está certa; você está mais que apto a largar a postura argumentativa, certas pessoas só aprendem no grito mesmo.
O melhor método para resolver esse problema da cooltização e da cultização da é justamente se informar, conversar com pessoas pertencentes a determinadas minorias, ou mesmo daquelas o que você pertence; e se portar, não de maneira doutrinária em função do outro, mas primeiramente ouvir e depois, se for o caso, rebater as opiniões. É preocupar-se, antes de militar, em saber por que se está fazendo isso.
É primeiramente saber que: só um indivíduo capaz de pensar, e repensar, por si mesmo determinada questão é capaz de fornecer argumentos para embasá-la; é pegar as frases prontas do ativismo e incorporá-las, refletir sobre elas, em vez de simplesmente reproduzi-las.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Todos fomos, de fato, macacos.






Todos fomos, de fato, macacos

“As ideias muito possuídas não são mais
ideias, eu nada penso quando as falo.”

(Maurice Merleau-Ponty, O Visível e o Invisível )

A arte da mimesis, ou seja, o dom para a imitação, que todos consequentemente adquirimos de forma a conseguir conviver em sociedade, torna-se mais dinâmica e rápida com o advento da internet, fazendo com que as ações que outrora repetimos por conta da tradição ( e por isso, interpretado e repensado por gerações), passassem a agora, serem repetidas por simples impulso, num tipo de repetição com base na repercussão de uma atitude que aqui chamo de viral. O mal da rápida repercussão de certas praticas, recai no antigo mal de tudo aquilo que é imediato: muitas vezes, é impensado profundamente. Não creio, pessoalmente, que a atitude de jogar bananas em Daniel Alves tenha sido levada pelo racismo, ou pelo fato de ele ser negro, mas pelo fato de ser brasileiro, num outro tipo de preconceito tão grave quanto, chamado de xenofobia. - no entanto, não é essa a questão; como a ação foi repercutiu como sendo racismo, tratarei como se fosse.
Qual é o sentido de se lutar contra o racismo apropriando-se de um xingamento racista? Para inicio de conversa, não somos biologicamente, de forma alguma, macacos, segundo a teoria da evolução, se tivéssemos evoluído do macaco, não haveriam mais macacos; somos frutos de um ancestral em comum, e mais ainda, mesmo vindo deste ancestral comum, macacos e humanos são espécies diferentes de primatas.
Então, entra a aqui a questão principal; não há respeito algum de se salientar que somos todos macacos; o que há, é, no máximo, uma banalização(para não se dizer) bananalização de algo que acarreta na morte de dezenas de pessoas todos os anos.
Estar "todos juntos" com hashtags apoiando um movimento que, por si só, já é uma reafirmação do discurso racista, o banalizando; é, também, uma banalização do movimento contra o racismo; não serve de nada escrever #somostodosmacacos e ir para o outro lado quando um negro cruza a rua, ou citar por ai com seus amigos "você está cheirando a nego"; em outras palavras, não adianta de nada, impregnar o instagran de fotos lindas de como você é ativista em prol das causas sociais, enquanto você estiver sentado no conforto de sua casa, continuando no seu dia a dia, a repetir o discurso ideológico racista, muitas vezes sem nem perceber. –– porque quando você o faz percebendo, a questão é ainda mais grave.
A atitude de Daniel Alves confere um discurso óbvio: “foda-se, eu sou rico, bem sucedido e ótimo no que faço; quem é você para me chamar de qualquer coisa?” atirar bananas em Daniel é uma atitude infantil de pessoas imbuídas de um sentimento não só de inveja, mas de Europeus percebendo um brasileiro negro ser muitíssimo mais bem sucedidos que eles; é algo que fere ideologicamente, é algo que magoa, claro; a agressão verbal ou ideológica deve sim ser combatida; nesse sentido, o jogador fez o certo ao mostrar que quem é o real macaco são os torcedores, ao jogar bananas ao estádio, como fazem os símios com suas fezes.
No entanto, nas favelas do Rio, não são bananas que são atiradas aos negros, são balas, e balas que não são as mesmas atiradas nos manifestantes de ocasião, aqueles mesmo que ano passado estavam nas ruas e hoje nada fazem mais do que postar hashtags de #nãovaitercopa; um outro exemplo de como a internet provoca uma ampla mimese, uma ampla imitação imediata (nenhuma critica a essas manifestações, que foram, alias, muitíssimo validas, mas que seriam ainda mais, se toda aquela massa ferrenha não tivesse aferrecido seu fervor em menos de um ano); as balas que são lançadas aos negros da favela, são de verdade, matam, e produzem corpos que jamais serão encontrados. Todos os dias, o racismo produz mortos, filhos órfãos, mães desesperadas que jamais verão seus filhos novamente, e que muitas vezes, não possuem nem mesmo um corpo a velar.
Achar que um simples # vai mudar toda uma ideologia é como reproduzir a visão inocente de que uma curtida vai tirar os mendigos da rua, ou vai fazer os milhares que passam fome ter um prato de comida em suas mesas; é necessária toda uma mudança ideológica, toda uma reforma política e social. Toda uma reforma política e social que deve começar dos indivíduos.
Enquanto houver pessoas que tem medo de negros por sua cor; ou pessoas duvidando da capacidade deles, por causa de um pouco mais de melanina em suas peles; enquanto houver a continua associação da cor da pele com a marginalidade; bananas serão a menor das preocupações. O mundo continuará a ser injusto.
O que significa então, postar fotos no instagran comendo bananas? Lutar contra o racismo? Ou simplesmente aderir a repetição de um modismo cujo teor filosófico não se foi pensado? Porque pensar cansa, pensar dói; repetir é muito mais simples, é muito mais fácil. É o que fazem os macacos; e no fundo, estamos sendo, de fato, todos macacos.
Lutar contra o racismo comendo bananas é o mesmo que lutar contra a agressão a mulher batendo nelas e rindo, divertindo-se com a banalização do ato; é lutar contra a homofobia chamando os gays de viado, como se isso não fosse, de fato, uma ofensa. Não é resignificar um termo para que ele seja menos ofensivo; é banalizá-lo, de forma que seu real caráter não seja de fato percebido, é mascarar a raiz do problema. Lutar contra o racismo comendo bananas em fotos nas redes sociais, é esquecer que o assunto é sério e que há pessoas em plena era contemporânea que ainda morrem por isso, resvalados a favela do esquecimento.
Me poupem de suas bananas; todos queremos respeito.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ser gay é uma religião




Ser gay é uma religião
Uma reflexão sobre a vivencia da sexualidade

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim.  Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas [os mitos] nos ajudam a procurar dentro de nós mesmos”.

CAMPBELL, Joseph.

A partir do presente momento até a última linha deste texto, cada uma de minhas palavras deve ser desconsiderada como uma tentativa séria de deidificação de quaisquer tipos; não pretendo fazer deste texto uma promoção de uma prática, de fato, religiosa, nem mesmo a pretensão da criação de uma nova religião pautada nas praticas da homossexualidade. Aqui deixo apenas uma reflexão da minha vivência da minha própria sexualidade.
Há muito se discorre sobre a existência de uma cultura gay; uma busca de definição do que é apenas estereotipo externo e do que é pratica de comum acordo dentro da homossexualidade. E sim, há certos parâmetros curriculares que devem ser atingidos se você pretende ser aceito na comunidade gay. E é através disso que percebo uma religião gay neste circulo cultural.
Antes de tudo, é preciso fazer uma diferenciação do praticante do homossexualismo; do homossexual e do gay, por serem entendidas como coisas distintas. Homossexualismo é uma prática de livre e espontânea opção, dada num momento pontual; um hétero pode sim praticar o homossexualismo e não ser propriamente homossexual; tudo vai depender da forma como ele se vê, da forma como ele vê o parceiro e da frequência que isso acontece (praticar uma vez o homossexualismo, não te torna homossexual; praticar isso várias vezes numa semana, é outra história); o homossexual em si é caracterizado por alguém (e aqui já não é mais tido como opcional) que sente atração por alguém do mesmo sexo de forma amorosa ou sexual; é alguém que não só pratica, mas sente desejo constante de praticar; no entanto, o homossexual não está ligado necessariamente à cultura gay.
Gay é o homossexual iniciado na religião; e o que é estar iniciado na religião? Antes de tudo, todo gay(mas não todo homossexual) tem culto a uma deidade, a uma divindade a qual ele chama diva. Diva é uma cantora de sucesso (ou não) que é adorada, idolatrada por fãs, que se unem em grupos nomeados; gostar de uma cantora, não é a torna sua diva; ela é a sua diva, a partir do momento que você se identifica como o modo de culto a aquela cantora, dada pelos demais membros do seu clã.
Isso parece algo trivial, mas não é; o gay é o equivalente na homossexualidade à figura do macho na heterossexualidade; um macho se diferencia de outros machos através do time que ele torce (sim, há heterossexuais que não tem time, isso não é uma afronta a sua masculinidade, ou a sua heterossexualidade; assim como não ter uma diva, não é uma afronta a sua homossexualidade); assim o gay diferencia-se em suas práticas culturais de outros gays através de sua diva e a defende de modo religioso. Gays de divindades consideradas opostas, como Madona e Lady Gaga, constantemente se digladiam nas redes sociais e em fóruns de discussão, verdadeiros templos voltados a promulgação dessas práticas.
Daí tem a discussão do estereotipo; todo gay usa gola V? Não; assim como nem toda mulher evangélica usa saia longa, determinados eixos ditam que é aconselhado o uso de tal vestimenta, do mesmo jeito, que certos círculos de pratica da religião gay salientam que é aconselhado (não obrigatório) o uso de certos tipos de vestimenta, a absorção cultural de certas práticas.
E de fato, em certos eixos de círculos culturais gays, se vestir de maneira inadequada, com cores não combinantes, ou usar gola pólo com short jeans é quase considerado um pecado; é quase, na palavra de certos puristas “vestir-se como hetero”; neste ponto, vemos a defensoria de um estilo de vida gay, um estilo que tem diferenciações com base nos eixos culturais a que você se une. Um estilo que faz com que você seja rechaçado caso você não o siga; um estilo que é defendido religiosamente, como se houvesse uma verdade ontológica vinda dessas divindades do que é, e do que não é.
Há, é claro, os círculos heréticos, os que observam, conhecem a cultura, mas não participam ativamente dela; algumas vezes chamados de narnianos, pessoas que, como na história de Lewis, entram e saem do armário, em outras palavras, pessoas que estão na linha tênue entre o considerado sagrado e o profano; que conhecem as práticas culturais, mas não as praticam.
Há nichos desse segmento religioso que promove a chamada hierarquização da sexualidade homoafetiva, de forma a estabelecer o critério de auto-aceitação como forma de alcançar o paraíso purpurinado das grandes deusas divas; em contrapartida, há ainda aqueles que preferem optar por um culto mais livre, um culto mais aberto, em que não uma diva é escolhida para ser a líder do panteão, mas mais de uma. Nuance que muito acontece com aqueles que não cultuam as divas do mundo pop; mas as ctónicas deusas do rock, do gótico, do metal e suas inúmeras variantes.
Portanto, ser gay é uma religião de diversas práticas; é acima disso, um eixo religioso politeísta; com diversas sub-religiões e é importante lembrar que estar ou não inserido nessa ou em outra cultura não lhe torna menos importante para o viver a experiência homossexual; a não ser, é claro, que você seja de um culto fanático que acha todas as outras praticas erradas em comparação com a sua.
O importante é, acima de tudo, respeitar a religião do outro, o modo do outro; e perceber, que até mesmo aqueles não-iniciados na religião, possuem, talvez, sua própria cultura, sua própria religião e também aceita-las como formas diferentes da sua. É respeitar o estilo de vida alheio; os deuses alheios, as divas alheias; e ver, que cada um escolhe o modo de se relacionar com aquilo que já nasce sendo.
Ser homossexual não é uma questão de escolha; fazer parte de cultura, o é.


E para você que ainda promove estereotipo; ou acredita que sua forma de vivenciar a gayzitude é a certa; ou que certos padrões são imprescindíveis, aqui vai um vídeo muito interessante(e sério!) sobre o tema.